Apresentação

Anélia Montechiari Pietrani

Professora adjunta de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Todos os livros enfocados nesta edição evidentemente são contemporâneos, entretanto, apesar das buscas específicas de seus respectivos autores, foram produzidos com tanta consciência que se inserem ativamente em um fluxo com origem no passado longínquo, graças ao qual a ficção e a poesia têm continuidade. A irmaná-los destacam-se também o carinho e o respeito com que os analistas os abordam, reveladores dos motivos que os levaram a escolhê-los como objetos de estudo.

Artigos

Ana Carolina da Conceição Figueiredo esmiúça a crônica “Exílio”, do escritor manauense Milton Hatoum. Integrante da coletânea Um solitário à espreita (2013), a narrativa se ambienta em 1969 e é protagonizada por jovens em luta contra o regime militar. Para empreender sua exegese, a analista recorre a teóricos como Antoine Compagnon, Hans Robert Jauss, Roland Barthes, Vincent Jouve e Wolfgang Iser. Assim, pode pensar em profundidade os laços entre real e imaginário com vistas à criação ficcional, apresentada como convite a um jogo a ser partilhado pelo escritor e pelo receptor.

Em sua análise de “Galope à beira-mar”, Célia Patrícia Sampaio Bandeira evita encaixar espaço-temporalmente o famoso poema de Ariano Suassuna e procura resgatar uma temporalidade mítica, marcada pela fusão entre pensamento, poesia e música. Para tanto, dialoga com um leque de pensadores que inclui desde o pré-socrático Heráclito e o filósofo alemão Martin Heidegger até compatriotas de nosso tempo como Antonio Jardim e Emannuel Carneiro Leão. Em síntese, mostra os versos como frutos do encontro do poeta paraibano com o saber originário, a perspectivarem os primórdios da cultura brasileira.

O terceiro artigo aproxima Bernardo Carvalho e Graciliano Ramos por meio de um movimento comparativo que busca matéria-prima para a construção da interface na obra de Luiz Costa Lima. Objetivamente, Erick Bernardes tematiza a monstruosidade no romance O filho da mãe (do carioca) e na crônica “Macobeba” (do alagoano). Por essa via, trata Quimera e Macobeba, a um só tempo, como metáforas da resistência política e produções de diferença – em ambos os casos, a atestarem o potencial da literatura para, sempre porosa, reconfigurar continuamente o mundo.

Samuel Rawet tem na universidade a principal instância a garantir atenção à sua relevante produção. É o que comprova o escrito devotado aos contos “A fuga” e “Uma velha história de maçãs”, nos quais se destaca um tema bastante presente na obra do autor: a angústia diante da dificuldade humana de se comunicar. Para pensar a problemática, Fernanda dos Santos Silveira Moreira recorre ao pensamento do filósofo judeu Martin Buber, que o ficcionista muito admirava. Assim, lança luz sobre a habilidade com que o escritor brasileiro de origem polonesa trata a diferença entre o que se espera e o que se alcança nas relações entre as pessoas.

Ensaios

A relação entre a literatura e outras linguagens oferece eixo ao primeiro ensaio, dedicado ao exame das muitas citações de letras de música presentes nos livros brasileiros Álbum duplo: um rock romance, de Paulo Henrique Ferreira, e Go, de Nick Farewell. Para desenvolver sua abordagem, Antonio Eduardo Soares Laranjeira dialoga com autores como Claus Clüver, Décio Cruz, Evelina Hoisel e Irina Rajewski. Pouco a pouco, demonstra que as canções pop que compõem a “trilha sonora” dos dois romances mantêm uma relação orgânica com o enredo e contribuem bastante para a construção das personagens.

Fábio Santana Pessanha encontra em Manoel de Barros a ressignificação da demência, que deixa de se associar à loucura para dizer da atitude de escuta da ressonância das palavras. A partir daí, visita outros poetas de nosso tempo, a exemplo do concretista Augusto de Campos, para quem a busca de sentido na poesia leva a um “quase”, o que significa que a falta continuará a existir. O itinerário inclui também o paranaense Paulo Leminski e o mato-grossense Nicolas Behr. Dessa forma, o ensaísta sinaliza preferências sem erigir cânon, ao mesmo tempo que aprofunda o enfoque e define a linha de raciocínio.

Em 2003, Sérgio Sant’Anna lançou a coletânea O voo da madrugada, feita de dezesseis narrativas que partilham o enfrentamento de temas delicados com uma ironia sutil e uma boa dose de autorreflexividade. Em seu texto, Flávia Danielle Rodrigues Silva se concentra em Itinerário demental para composição de poetas

Fábio Santana Pessanha

Ser demente comumente significa não estar bem das ideias. Mas na poética de Manoel de Barros é quando alguém ouve a própria ressonância nas palavras. Podemos acreditar que essa demência seja coisa de poeta, que se ouve nas palavras e procura poesia onde talvez ela ainda não exista. Com Augusto de Campos, percebemos que querer achar um sentido cabal para a poesia é um “quase”, uma falta que persiste. Então, para buscar esse quase, essa falta, há um percurso, um itinerário demental, trilhado neste ensaio a partir de Manoel de Barros, passando por Augusto de Campos, Paulo Leminski, Nicolas Behr, entre outros.

Tabu e linguagem em “Um conto nefando?”, em que um incesto entre mãe e filho é apresentado sem idealização nem moralismo, o que deixa o receptor à vontade para atentar menos para o comportamento do que para a linguagem. Assim, pode admirar a inteligência e a lapidação que fazem da obra do autor uma das mais prestigiosas de nossa contemporaneidade.

O último ensaio se detém inicialmente no século XIX, quando o romance decidiu se engalfinhar com a sempre injusta realidade do mundo e encontrou autores como Dostoiévski, Flaubert, Henry James, Machado de Assis e Émile Zola dispostos a levar longe o senso crítico. O segundo movimento  de Sérgio Sant’Anna

Flávia Danielle Rodrigues Silva

Na coletânea O voo da madrugada, Sérgio Sant’Anna trata de tabus como pedofilia, abuso sexual, suicídio, desejo, nudez, agressão e perversão. Neste trabalho, analisamos “Um conto nefando?”, que narra um incesto entre mãe e filho sem emitir qualquer julgamento, cabendo ao leitor decidir se a história tem vilão ou herói. Nossa abordagem ressalta o fato de que, para dar conta do delicado assunto, o autor trabalha exaustivamente a linguagem, que se mostra, a um só tempo, simples e refinada. Além disso, o narrador reflete sobre o próprio trabalho de escrita, aspecto que, juntamente com o tom obscuro dos temas, contribui para criar unidade entre as dezesseis narrativas do livro.

Poéticas da desigualdade social no romance brasileiro contemporâneo

de Gabriel Estides Delgado é apontar Chico Buarque e Rubens Figueiredo como ficcionistas que dão continuidade a essa tradição. Nesse sentido, analisa

Expedientes narrativos de Chico Buarque e Rubens Figueiredo são analisados de maneira a desvendar como a carga social brasileira faz-se presente em sua constituição. Não porque apenas tematizam a violência da desigualdade em Leite derramado (2009) e Passageiro do fim do dia  no tocante tanto à partilha da preocupação social quanto às peculiaridades formais.

Entrevistas(2010), mas pelo enfrentamento poético da matéria que, cada autor à sua maneira, assumem. Para traçar uma linha de afiliação da criticidade presente em ambas as obras, remonta-se à poética de Machado de Assis, bem como às marcas que a conflagração social europeia passava a impor aos mais relevantes de seus contemporâneos.

A gaúcha Leila Lehnen é mundialmente conhecida pelo misto de desvelo e denodo com que trata a literatura contemporânea produzida no Brasil e nos demais países latino-americanos. O aparente ecletismo relativamente à escolha dos autores de sua predileção encontra um contraponto dos mais fecundos na opção por escritos ficcionais em que se percebe o desassossego frente às injustiças.

Em respostas enviadas por e-mail, a professora da Universidade do Novo México sublinha o fato de os Estados Unidos serem um pouco mais abertos aos textos produzidos em espanhol, cujos autores em atividade partilham com os brasileiros a dificuldade de fazer ler produções refratárias a estereótipos. Mas o senso de realidade não a impede de apontar meios de tornarmos a ficção e a poesia nacionais mais conhecidas no exterior – esforço a que dedica boa parte de sua atuação.

A segunda entrevista nasceu de um encontro vibrante de Silviano Santiago com os estudantes e professores da Faculdade de Letras da UFRJ. Convidado a falar sobre seus dois últimos livros – o romance Machado e o ensaio Genealogia da ferocidade – ensaio sobre Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa –, o escritor e professor dilatou o foco para tratar de vários títulos de sua vasta obra e abordar questões cruciais dos estudos literários.

Em sua fala, sublinhou o fato de estar com oitenta anos de idade para se dizer numa fase da vida em que pode reduzir a carga de leitura e ousar desfazer até mesmo de caminhos trilhados durante sua formação. Não por acaso, há bastante tempo seu ensaio e sua ficção embaralham os gêneros e põem abaixo barreiras colocadas para sua geração, a exemplo da empobrecedora ideia de rebaixar a biografia, o contexto e qualquer outra fonte de elementos ditos extraliterários, para limitar a atenção ao texto em si.

Resenhas

A resenha de André Gardel sobre A mulher do fuzileiro é prova concreta do valor da honestidade intelectual. Ao percorrer os diferentes contos da coletânea de Álvaro Marins, o analista leva a cabo um comparatismo interno em que várias composições despontam como irretocáveis, enquanto umas poucas se veem merecedoras de ajuste. Entre outras vantagens, a franqueza legitima a afirmativa do lugar especial ocupado pela obra em nossa contemporaneidade literária e nos estimula a ler todas as narrativas, de modo a nos irmanarmos ao ficcionista e ao analista no fascinante exercício dos sensos crítico e estético.

Em seu segundo romance, Luciana Hidalgo cria um caso de amor durante a ditadura, entre dois exilados brasileiros em Paris. Ao analisar Rio-Paris-Rio, Caio Meira chama a atenção para o fato de a autora não temer a realidade, preferindo incorporá-la à ficção, potencializada pelo desenvolvimento da subjetividade dos personagens e pela lida meticulosa com a linguagem. Assim, o receptor tem o prazer de apreciar uma narrativa densa e trabalhada, que lhe oferece, além disso, lentes acostumadas a ler momentos como o atual – igualmente maculado pelo golpe.

Márcio-André Haz entrega o protagonismo de Leonardo contra Paris  a um escritor suburbano que, ao perder a namorada que lhe dava guarida no abastado bairro do Leblon, inventa uma viagem a Paris, onde supostamente lecionaria na Sorbonne. Manifestada a mentira, nada mais fácil que sustentá-la nessa fábrica de fanfarrice chamada rede social: fotomontagens e outros recursos de edição fingem tão bem o sucesso na França que despertam enxurradas de curtidas. Em sua resenha, Felipe Fernandes Ribeiro destaca que o engodo se espessa ao se apresentar como marca do próprio mundo literário, igualmente movido pela farsa interesseira.

O título do livro de poemas de W. B. Lemos – Rasga-mortalha. Poemas dos outros – sintetiza a exitosa proposta, desenvolvida ao longo de suas páginas, de fazer-se basicamente do diálogo com autores mortos, entre os quais se encontram desde Gregório de Matos até Bukowski, passando por Machado de Assis, Beckett, Gertrude Stein e Leminski. Segundo Juliana Bratfisch, a pluralidade da interlocução faz os versos variarem de tom, indo do arcaico ao escrachado. Mais que isso, a ancoragem no passado é apenas parte do projeto, que inclui ainda “uma confiança no errático que sustenta o livro e a escrita”.

Possível desdobramento

Como o leitor vê, os articulistas, ensaístas, entrevistados, entrevistadores e resenhistas conseguem chamar a atenção para aspectos importantes dos escritos de que tratam e, ao mesmo tempo, despertar a vontade de conhecê-los integralmente. Então nos vemos diante de uma situação duplamente promissora: caso mergulhemos nos contos, poemas e romances examinados, ampliamos bastante as chances de enriquecer nossa visão da literatura e, no mesmo movimento, fortalecer a produção de nossos coetâneos.

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